22 October 2007

Escravos da técnica

Os tempos modernos fizeram muito bem a todos nós. Tão bem que já não sabemos como a humanidade pôde viver tanto tempo sem as maravilhas descobertas pela ciência e popularizadas como tecnologias. Celular, computador, carro, biocombustíveis, técnicas cirúrgicas de altíssima precisão, remédios ultra-modernos. A vida ficou mais prática e ficamos com o tempo gasto em tarefas manuais finalmente liberado para fazer o que realmente importa.

O volume de conhecimento tecnológico desenvolvido pela humanidade nos últimos 100 anos é tão grande que já não há saber enciclopédico que dê conta de dominá-lo. Aliás, sabemos muito pouco sobre o mundo moderno de que nos cercamos. Sabemos usar as coisas, mas não sabemos do que elas são feitas – e menos ainda dos efeitos dessas coisas.

Durante o II Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, o engenheiro civil Miguel Sattler deu a todos os presentes um exemplo contundente disso. Com uma garrafinha de água mineral nas mãos, da marca Charrua, comentou com os presentes que segundo a Resolução 20/86 do Conama, os teores aceitáveis de nitrato na água para consumo humano vão até 10mg/L. Pois bem, o rótulo da garrafinha em questão anunciava que aquele recipiente continha 34mg/L de nitrato – uma substância prejudicial às funções renais. A informação simples e clara provocou um efeito estarrecedor na platéia de cerca de 300 pessoas. Imediatamente garrafinhas de água mineral foram sacadas de bolsas e tabelas de valores conferidas. “Esse aqui nem tem informação”, espantou-se alguém.

E essa é apenas uma das muitas informações sobre dezenas de substâncias potencialmente tóxicas ou cancerígenas citadas por Sattler em sua palestra sobre cidades sustentáveis, no painel dividido com o jornalista André Trigueiro. As informações vão desde as dioxinas dos plásticos até as substâncias químicas usadas na fabricação de tintas e para impermeabilização de madeira.

Acostumados a aceitar o que a técnica nos vende banhada em incontestabilidade científica, não questionamos mais nada, não perguntamos para onde vai nosso lixo, em quê ele se transforma, que impactos pode ter no ambiente e na nossa saúde. Consumimos indiscriminadamente substâncias químicas as mais diversas sem questionar nada.

Nossa única exigência é que cada novo produto seja menor e mais prático, para nos poupar o já tão escasso tempo. Tempo que antes empregávamos cozinhando o que comemos, lavando o que sujamos e andando entre um lugar e outro e que hoje gastamos em tratamentos médicos, brigando com eletrodomésticos e queimando combustíveis fósseis desnecessariamente para vencer mil metros.

Mas nós, escravos da técnica, temos fé. Fé que sempre virá uma nova técnica que vai nos salvar dos problemas que provocamos com as atuais.

1 comment:

Débora Menezes, jornalista e educadora ambiental said...

Parabéns pela iniciativa, pessoal! Já coloquei um link da página de vocês no meu blog http://educomverde.blogspot.com. Sempre que tiverem contato com escolas fazendo projetos de educação ambiental em seu estado, compartilham contatos, para que eu possa divulgá-las também! Como comentei na rede, a mídia é hoje a principal fonte de informação dos educadores. Vamos ajudá-los ainda mais, e incentivá-los!